Com reforma da rodoviária, mudanças no trânsito durarão por 30 dias

Relatório da Novacap aponta que terminal do Plano Piloto sofre risco de desabamento, com fissuras, corrosão, infiltração e desgastes capazes de provocar colapso estrutural. Obra custará R$ 6 milhões e interditará parte do tráfego no piso superior

A circulação de veículos em um dos lados da plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto ficará proibida a partir da tarde desta quinta-feira (27/6). Nesta quarta-feira (26/6), o governador Ibaneis Rocha (MDB) anunciou que a estrutura do terminal corre risco iminente de desabamento devido a quase 60 anos de desgaste e à manutenção precária. Estacionamentos e uma das duas vias ficarão totalmente bloqueados. A outra, aberta apenas para veículos de passeio, terá duas faixas liberadas no sentido sul-norte, e a terceira, no sentido norte-sul.
A decisão de interditar parte da Rodoviária partiu do resultado de um laudo divulgado pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), concluído na segunda-feira. No documento, técnicos lembram que o terminal de ônibus recebe, diariamente, fluxo de 700 mil pessoas e que a edificação é uma das mais complexas da capital do ponto de vista arquitetônico por causa da grande quantidade de viadutos. “Isso dificulta qualquer tipo de ação preventiva ou corretiva sem causar enormes transtornos à sua operação”, concluiu o relatório.
O levantamento aponta que um acidente estrutural no local, como ocorreu com o viaduto da Galeria dos Estados, poderia causar centenas de mortes. Os engenheiros identificaram na laje de cobertura da plataforma inferior “o rompimento de cabos de protensão de longarinas por corrosão, movimentação anormal com abertura de frestas em vigas de encabeçamento do caixão perdido da plataforma superior, problemas de infiltração, problemas com estrutura do reservatório de incêndio, corrosão nos guarda-corpos dos viadutos, fissuras de vigas e lajes”.

Ainda segundo o relatório, “verificou-se que as fissuras estruturais são as de maior relevância e podem trazer maior risco à segurança estrutural da rodoviária, inclusive risco de colapso estrutural e desabamento, exigindo ações imediatas”. O Executivo publicará, até a próxima semana, uma licitação emergencial para a escolha da empresa responsável pelas obras. A expectativa é de que a intervenção custe R$ 6 milhões aos cofres públicos. O governo articula com a Secretaria de Fazenda de onde sairá o montante. Um decreto de destinação de recursos para a Novacap para a intervenção deve ser publicado no Diário Oficial do DF desta quinta-feira (27/6).

Incômodo

O governador Ibaneis Rocha afirmou que a descoberta do problema decorreu de monitoramentos em pontos considerados sob risco pelo Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF). O documento da Novacap indicou perigo de desabamento, principalmente, da pista de sentido norte-sul devido a um aumento de 0,9cm em três meses na fissura observada. “Não gostaríamos de fazer isso devido ao incômodo que vai causar, mas tornou-se uma questão emergencial por estar no centro da capital e pelo fato de mais de 700 mil pessoas passarem por ali”, declarou.

Equipes do Departamento de Estradas de Rodagem (DER/DF) e das secretarias de Obras e Infraestrutura e de Transporte e Mobilidade acompanharão os trabalhos. Os reparos devem ocorrer em dois turnos e, a princípio, não há previsão de interdição total do terminal. A expectativa é de que os trabalhos comecem em até 15 dias e terminem em três meses. “Recursos para uma situação emergencial como essa não são tão difíceis de resolver. Nem que tenhamos de fazer um contingenciamento. Vamos dar um jeito. Não faltarão recursos”, reforçou Ibaneis.

As mudanças no tráfego durarão pelo menos 30 dias, e o trânsito só será liberado após o escoramento de toda a estrutura. Nesta quarta-feira (26/6) à noite, uma equipe técnica do governo começou a sinalizar os pontos que passarão por mudanças. Ônibus de 42 linhas que passavam pela plataforma superior do terminal terão embarque e desembarque transferido para o piso inferior. Não houve detalhes, entretanto, dos locais onde a população deverá aguardar pelos coletivos.

A mudança pegou passageiros de surpresa. Um deles foi o professor de dança Lehandro Lira, 32 anos, que dá aulas no Centro de Dança. A fim de voltar para casa, pega o ônibus na parte de cima da Rodoviária. Morador de Planaltina, ele não critica a interdição. No entanto, acredita que a população deveria ter sido informada com antecedência. “Tenho consciência de que a possibilidade de desabamento é resultado de um descaso governamental anterior e que (o cenário) se agravou. A interdição é para manter a segurança, mas avisar de um dia para o outro é errado. As pessoas serão pegas de surpresa e isso vai gerar revolta”, avaliou.

Memória: susto no Eixão Sul

Em 6 de fevereiro de 2018, parte da estrutura do viaduto da Galeria dos Estados desabou, amassou quatro carros e danificou um restaurante. Apesar do susto, não houve vítimas. Um relatório do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) de 2012 alertava sobre o risco de queda e a necessidade de manutenção na estrutura. Após o incidente, especialistas da Universidade de Brasília (UnB) indicaram que o viaduto fosse totalmente demolido, mas o governo optou pelo reaproveitamento de parte da estrutura. O edital para a construção saiu cinco meses depois. As obras começaram em setembro e custaram R$ 10,9 milhões. O trecho bloqueado foi reaberto em 1º de junho.
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