Entrada de pessoas sem autorização ameaça fauna e flora de áreas protegidas

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Funcionários do Jardim Botânico e do Ibram identificam presença irregular de pessoas em estações ecológicas e unidades de conservação restritas a pesquisadores. Falta de cuidado coloca em risco a flora, a fauna e a saúde pública

Queimadas de grandes proporções, córregos secos e animais que precisam abandonar o próprio habitat. Muitos desses prejuízos naturais são provocados por desrespeito à preservação. De acordo com o Instituto Brasília Ambiental (Ibram), nas férias, muitas pessoas frequentam de forma irregular estações ecológicas e áreas de proteção ambiental restritas a pesquisadores e pessoal autorizado (leia Para saber mais). Para impedir esse problema, fiscais intensificam a atuação em julho.
Uma das regiões de acesso proibido fica na Estação Ecológica do Jardim Botânico. “Nessa época de férias, um período de seca no qual as pessoas sabem que não vai chover, muitos procuram uma atividade na natureza. Mas, apesar de termos uma área de mais de 30km de trilha dentro do Jardim Botânico, brasilienses estão frequentando justamente o local de presença proibida”, alerta Lucas Miranda, gerente de Educação Ambiental do local. A atividade nessas regiões rende até multa.
O Correio acompanhou o trabalho de fiscalização na cachoeira Samandi, localizada dentro da área restrita do parque, e flagrou um banhista com mulher, filhos e cachorro. Segundo agentes de preservação, o mesmo homem foi visto outras vezes no local e havia sido avisado sobre a proibição. Devido à Lei nº 41/1989, que rege a Política Ambiental local, ele foi autuado pela infração com uma multa de R$ 1.188,21.

A PM Ambiental participa de fiscalizações nas unidades de conservação
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
Frequentar esses pontos pode parecer inofensivo, mas gera danos estruturais, como detalha Davi Ferreira, diretor de Fiscalização de unidade de conservação do Ibram. “Temos pesquisadores de fauna, por exemplo, que ficam posicionados, estudando a vida silvestre. Quando passa um conjunto de ciclistas ou outros frequentadores, isso afugenta os animais. Fora algumas trilhas que se abrem por causa desse uso irregular e acabam gerando supressão de vegetação. Isso também gera um grande dano às pesquisas, pode até suprimir algumas espécies endêmicas, que são exclusivamente de uma determinada região geográfica, e acabam sendo extintas pelo pisoteio”, explica.

Fogueiras

O inverno no Distrito Federal é marcado pelos dias sem chuvas, tanto que Brasília está em estado de emergência pelo risco de incêndios florestais, agravados pelo calor e pela seca. Entre 1º de junho e 6 de julho, o Corpo de Bombeiros atendeu 696 chamados de queimadas, o que totalizou uma área destruída de 8.248.002 metros quadrados, o equivalente a 825 campos de futebol. Agentes de preservação do Jardim Botânico encontram com frequência pedaços de madeira queimados em pontos restritos.
O empresário Fernando Loureiro, 37 anos, presenciou situações de incêndio que colocaram em risco a vida dele. Morador do Lago Sul, ele tem uma casa nas proximidades de uma Área de Preservação Ambiental (APA). “Há uns três anos, teve uma queimada próximo de lá, e eu tive de sair correndo para não ser atingido. A sorte é que a grama da minha residência é baixa, o que evitou um desastre maior. Mas eu poderia ter perdido tudo”, conta.
Pedro Paulo Cardoso, gerente de Preservação do Jardim Botânico, diz que muitas ocorrências de perigo começam devido aos próprios frequentadores em ambientes de pesquisa. “Como muita gente vem para a nossa estação ecológica e faz cabanas e fogueiras, boa área de cerrado é perdida. Isso prejudica a fauna e a flora”, menciona.
Apesar de placa alertar para área de entrada proibida, ciclistas, pedestres e banhistas insistem na ilegalidade
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Outro problema aparece na água. A estação também serve como área de captação da Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb), mas a qualidade do produto captado, muitas vezes, é atingida. “A água de lá abastece boa parte da cidade. Então, o fato de brasilienses frequentarem esse local gera problemas ambientais, hídricos e até de saúde pública. A pessoa vai consumir uma água, e ela vem com resto de alimento e resquício de protetor solar”, exemplifica.
Apesar da proibição de frequentadores nas áreas de proteção, não faltam opções para curtir a natureza de maneira respeitosa no DF, sem prejuízos ambientais, como lembra Davi Ferreira, do Ibram: “Dentro do Jardim Botânico, existem áreas que podem ser frequentadas. Fora de lá, temos outros parques, como o Dom Bosco e o Copaíbas, que são unidades de uso sustentáveis e podem ser acessados. O nosso clamor é de que a estação ecológica seja utilizada para fins de pesquisa, que é o objetivo dela”.

Acesso proibido

No Distrito Federal, são locais de acesso proibido à população estações ecológicas, Reserva Biológica Descoberto, Reserva Biológica Contagem, Reserva Biológica Guará, Reserva Biológica Gama e Reserva Biológica Cerradão.Para saber mais
Em nome da preservação 
 
A estação ecológica é uma categoria de unidade de conservação de uso integral prevista na Lei Complementar nº 827, de 22 de julho de 2010, que dispõe sobre o Sistema Distrital de Unidades de Conservação da Natureza. O objetivo das estações ecológicas são a preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas em área com o mínimo de interferência de ações humanas. A visitação pública é proibida, exceto com objetivo educacional, de acordo com o que dispuser o plano de manejo da unidade ou o regulamento específico. 
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