Por acordo comercial, Guedes e Bolsonaro recebem secretário dos EUA

O presidente tentará negociar um acordo que destrave burocracias com os Estados Unidos, dias depois de dispensar chanceler francês

Dois dias após desmarcar uma reunião com o chanceler da França (e, no mesmo horário, fazer uma live cortando o cabelo no Facebook), o presidente Jair Bolsonaro deve se comportar de forma diferente nesta quarta-feira (31).

Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, recebem em Brasília o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, e tentarão começar uma negociação por um acordo comercial entre os dois países.

Ross ficará no Brasil por quatro dias, e, de acordo com comunicado do ministério da Economia, a visita “deve consolidar entendimentos para uma relação comercial e industrial forte entre os dois países”.

Nesta terça-feira, 30, o presidente americano, Donald Trump, disse a jornalistas na Casa Branca que vai trabalhar pelo acordo e que o Brasil “é um grande parceiro comercial”. “Eles nos cobram um monte de tarifas, mas, fora isso, nós amamos o relacionamento”, disse Trump.

Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, respondendo por 12% das exportações, atrás da China, que tem 28%. Em 2018, o Brasil exportou 28,7 bilhões de dólares para os americanos e comprou 29 bilhões, com déficit de 271 milhões de dólares.

Além de Brasília, o secretário americano se reunirá com empresários em São Paulo, onde o acordo comercial também deve ser pauta. A Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham), que representa mais de 5.000 empresas brasileiras e americanas, é favorável ao acordo, que estima ter potencial para alavancar o Produto Interno Bruto do Brasil em 1,30% até 2030.

A Amcham e empresários defendem um acordo “gradual”, que, por ora, não inclua diminuição de tarifas, mas apenas redução de burocracia. Dessa forma, o tema não precisaria passar pela chancela do Mercosul, bloco sul-americano do qual o Brasil faz parte.

O secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais, Marcos Troyjo, disse à Reuters que o governo quer estabelecer o que é possível fazer nos próximos seis meses e espera que as conversas desta semana resultem em “um cronograma conjunto”.

Ao jornal O Estado de S.PauloDeborah Vieitas, presidente da Amcham, afirmou que o acordo recente do Mercosul e União Europeia também é “estimulante” para a discussão com os americanos.

A França diria o contrário, com o presidente Emmanuel Macron afirmando que pode barrar o acordo se o Brasil não rever seus posicionamentos ambientais e o chanceler francês Jean-Yves Le Drian voltando para casa dispensado por Bolsonaro nesta semana.

Assim, por mais que um acordo com os EUA avance, ao não receber o chanceler francês e receber um representante americano na mesma semana, Bolsonaro age pessoalmente para minar um acordo pelo qual a diplomacia brasileira trabalhou nos últimos 20 anos — e com um bloco que representa 18% das exportações, mais que os 12% do país de Donald Trump.